Em exposição no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, a fotógrafa espanhola Beatriz Ruibal transforma objetos em vestígios de memória e aproxima fotografia, ausência e história.
Há objetos que parecem guardar mais do que aquilo que os olhos alcançam. Carregam marcas, silêncios, gestos interrompidos e histórias que permanecem mesmo quando aqueles que os possuíram já não estão presentes. É a partir dessa ideia que a fotógrafa espanhola constrói Inventário. Os objetos olham para nós, exposição que chega ao Rio de Janeiro depois de circular por diferentes sedes do Instituto Cervantes na Europa.

A mostra inaugura sua itinerância brasileira no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, em Botafogo, no dia 28 de agosto, em parceria com o festival FOTORIO. Depois da temporada carioca, a exposição seguirá para Porto Alegre. Apresentada anteriormente em Budapeste, na Hungria; Cracóvia, na Polônia; Palermo, na Itália — onde ocupou a Igreja Santa Eulália de Catalanos —; e Lisboa, em Portugal, Inventário investiga a memória por meio de uma matéria aparentemente silenciosa: os objetos.

O projeto estabelece uma relação particular com a Guerra Civil Espanhola e com os criadores que atravessaram aquele contexto histórico. Em vez de recorrer diretamente aos seus retratos, Ruibal procura aquilo que permaneceu: os objetos que acompanharam suas vidas, seus trabalhos e seus processos criativos.
Quando o objeto se torna testemunha
Em Inventário, os objetos deixam de ocupar uma posição secundária. Fotografados em grande escala e observados em detalhes minuciosos, eles passam a funcionar como extensões de seus antigos donos — fragmentos capazes de evocar uma presença justamente a partir da ausência. A fotografia, nesse movimento, não se limita ao registro. Ela descontextualiza, aproxima e reorganiza. Um objeto cotidiano pode adquirir uma dimensão histórica; um fragmento pode se transformar em testemunho; uma imagem pode fazer com que passado e presente se encontrem novamente.

O trabalho de Ruibal parte dessa tensão entre aquilo que permanece e aquilo que desaparece. Suas imagens estabelecem conexões entre memória pessoal e processos históricos, políticos e sociais, reconstruindo narrativas a partir de vestígios. Cada fotografia torna-se, assim, um território de encontro entre tempos distintos. O passado não aparece como algo encerrado, mas como uma presença que continua a produzir perguntas no presente.

A chegada da exposição ao Rio de Janeiro também amplia esse diálogo. Em parceria com o FOTORIO, a abertura será acompanhada de uma conversa entre Beatriz Ruibal e Milton Guran, diretor do festival, no auditório do Instituto Cervantes. O encontro acontece no dia 28 de agosto, às 18h, e colocará em diálogo os processos de pesquisa e criação dos dois fotógrafos, especialmente suas relações com fotografia, memória e Guerra Civil Espanhola.
Ao longo de anos de pesquisa, Guran dedicou-se à história da chamada “Mala Mexicana”, conjunto de negativos produzidos durante a Guerra Civil Espanhola por fotógrafos como Robert Capa, que permaneceu desaparecido por mais de meio século até ser localizado na Cidade do México, em 2007.
A ARTISTA

Radicada em Madrid, Beatriz Ruibal desenvolve seu trabalho artístico desde 1992, transitando entre ensaios fotográficos, videoarte e instalações. Sua formação em filosofia e comunicação audiovisual se articula a uma trajetória dedicada também à pesquisa e à edição literária de obras de escritores e poetas hispano-americanos e norte-americanos. Em sua produção, a fragilidade da existência contemporânea, a ausência e a memória aparecem como questões recorrentes. Espaços, paisagens e objetos tornam-se meios para investigar aquilo que permanece quando a presença humana já não está ali. Há, em seu trabalho, uma espécie de arqueologia do cotidiano: observar o que ficou para compreender aquilo que partiu. Seus ensaios fotográficos procuram preservar memórias individuais e pensar como elas podem atravessar gerações. Já seus trabalhos em vídeo e instalações ampliam essa investigação para questões relacionadas à responsabilidade ética e cívica diante do futuro da natureza, das mudanças climáticas e da preservação de espécies ameaçadas. Seu processo criativo se estrutura em três movimentos: a investigação de contextos históricos, sociais ou culturais; a seleção de pessoas, ambientes ou objetos capazes de representar esses contextos; e, finalmente, a construção de uma imagem que lhes atribui uma dimensão simbólica. É nesse sentido que seu trabalho pode ser compreendido como um retrato em sua acepção mais ampla. Em vez de fotografar apenas uma pessoa, Ruibal fotografa aquilo que permanece ligado a ela.
O que os objetos ainda têm a dizer?
Inventário. Os objetos olham para nós propõe uma inversão silenciosa: talvez não sejamos apenas nós que observamos os objetos. Talvez sejam eles que, carregados de histórias, nos devolvam o olhar. Entre fotografias, ausências e vestígios, Beatriz Ruibal transforma aquilo que poderia parecer banal em matéria de investigação histórica e poética. O objeto deixa de ser apenas coisa. Torna-se memória. E, diante dele, somos convidados a perguntar não somente quem esteve ali, mas também o que permanece quando alguém já não está.

Serviço: Inventário. Os objetos olham para nós, de Beatriz Ruibal, de 29 de agosto a 28 de outubro de 2026, no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro. Rua Visconde de Ouro Preto, 62 – Botafogo, Rio de Janeiro – RJ.