Em exposição no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, a fotógrafa espanhola Beatriz Ruibal transforma objetos em vestígios de memória e aproxima fotografia, ausência e história.

Há objetos que parecem guardar mais do que aquilo que os olhos alcançam. Carregam marcas, silêncios, gestos interrompidos e histórias que permanecem mesmo quando aqueles que os possuíram já não estão presentes. É a partir dessa ideia que a fotógrafa espanhola  constrói Inventário. Os objetos olham para nós, exposição que chega ao Rio de Janeiro depois de circular por diferentes sedes do Instituto Cervantes na Europa.

Obra del proyecto Inventario, 2023. Fotografía.

A mostra inaugura sua itinerância brasileira no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, em Botafogo, no dia 28 de agosto, em parceria com o festival FOTORIO. Depois da temporada carioca, a exposição seguirá para Porto Alegre. Apresentada anteriormente em Budapeste, na Hungria; Cracóvia, na Polônia; Palermo, na Itália — onde ocupou a Igreja Santa Eulália de Catalanos —; e Lisboa, em Portugal, Inventário investiga a memória por meio de uma matéria aparentemente silenciosa: os objetos.

Ruibal, Inventario, Bailarinas, Zenobia

O projeto estabelece uma relação particular com a Guerra Civil Espanhola e com os criadores que atravessaram aquele contexto histórico. Em vez de recorrer diretamente aos seus retratos, Ruibal procura aquilo que permaneceu: os objetos que acompanharam suas vidas, seus trabalhos e seus processos criativos.

Quando o objeto se torna testemunha

Em Inventário, os objetos deixam de ocupar uma posição secundária. Fotografados em grande escala e observados em detalhes minuciosos, eles passam a funcionar como extensões de seus antigos donos — fragmentos capazes de evocar uma presença justamente a partir da ausência. A fotografia, nesse movimento, não se limita ao registro. Ela descontextualiza, aproxima e reorganiza. Um objeto cotidiano pode adquirir uma dimensão histórica; um fragmento pode se transformar em testemunho; uma imagem pode fazer com que passado e presente se encontrem novamente.

Ruibal, Inventario, Sortija, Madre Gamoneda

O trabalho de Ruibal parte dessa tensão entre aquilo que permanece e aquilo que desaparece. Suas imagens estabelecem conexões entre memória pessoal e processos históricos, políticos e sociais, reconstruindo narrativas a partir de vestígios. Cada fotografia torna-se, assim, um território de encontro entre tempos distintos. O passado não aparece como algo encerrado, mas como uma presença que continua a produzir perguntas no presente.

Inventario, Gafas de Juan Ramón Jiménez, 2021

A chegada da exposição ao Rio de Janeiro também amplia esse diálogo. Em parceria com o FOTORIO, a abertura será acompanhada de uma conversa entre Beatriz Ruibal e Milton Guran, diretor do festival, no auditório do Instituto Cervantes. O encontro acontece no dia 28 de agosto, às 18h, e colocará em diálogo os processos de pesquisa e criação dos dois fotógrafos, especialmente suas relações com fotografia, memória e Guerra Civil Espanhola.

Ao longo de anos de pesquisa, Guran dedicou-se à história da chamada “Mala Mexicana”, conjunto de negativos produzidos durante a Guerra Civil Espanhola por fotógrafos como Robert Capa, que permaneceu desaparecido por mais de meio século até ser localizado na Cidade do México, em 2007.

A ARTISTA

Beatriz Ruibal, María Antonia García de La Vega.

Radicada em Madrid, Beatriz Ruibal desenvolve seu trabalho artístico desde 1992, transitando entre ensaios fotográficos, videoarte e instalações. Sua formação em filosofia e comunicação audiovisual se articula a uma trajetória dedicada também à pesquisa e à edição literária de obras de escritores e poetas hispano-americanos e norte-americanos. Em sua produção, a fragilidade da existência contemporânea, a ausência e a memória aparecem como questões recorrentes. Espaços, paisagens e objetos tornam-se meios para investigar aquilo que permanece quando a presença humana já não está ali. Há, em seu trabalho, uma espécie de arqueologia do cotidiano: observar o que ficou para compreender aquilo que partiu. Seus ensaios fotográficos procuram preservar memórias individuais e pensar como elas podem atravessar gerações. Já seus trabalhos em vídeo e instalações ampliam essa investigação para questões relacionadas à responsabilidade ética e cívica diante do futuro da natureza, das mudanças climáticas e da preservação de espécies ameaçadas. Seu processo criativo se estrutura em três movimentos: a investigação de contextos históricos, sociais ou culturais; a seleção de pessoas, ambientes ou objetos capazes de representar esses contextos; e, finalmente, a construção de uma imagem que lhes atribui uma dimensão simbólica. É nesse sentido que seu trabalho pode ser compreendido como um retrato em sua acepção mais ampla. Em vez de fotografar apenas uma pessoa, Ruibal fotografa aquilo que permanece ligado a ela.

O que os objetos ainda têm a dizer?

Inventário. Os objetos olham para nós propõe uma inversão silenciosa: talvez não sejamos apenas nós que observamos os objetos. Talvez sejam eles que, carregados de histórias, nos devolvam o olhar. Entre fotografias, ausências e vestígios, Beatriz Ruibal transforma aquilo que poderia parecer banal em matéria de investigação histórica e poética. O objeto deixa de ser apenas coisa. Torna-se memória. E, diante dele, somos convidados a perguntar não somente quem esteve ali, mas também o que permanece quando alguém já não está.

Inventario, Bote de tierra de María Zambrano, 2024

Serviço: Inventário. Os objetos olham para nós, de Beatriz Ruibal, de 29 de agosto a 28 de outubro de 2026, no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro. Rua Visconde de Ouro Preto, 62 – Botafogo, Rio de Janeiro – RJ.

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Publicado por:Philos

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