INTRODUÇÃO

O território roubado não pertence a ninguém.

Mitômatos —Eu, tu, ele, nós, vós, eles. A emancipação da cor começou logo cedo e junto dela as mentiras. Não lembro a primeira vez que menti, mas já mentindo, talvez no berço com choro prolongado. Na primeira infância, as narrativas contadas na maior parte das vezes são falsas. Aliás não há narrativas genuinamente verdadeiras. O que existe é um bocado de névoa e falta de verbo.

Entre os espaços, costuramos aquilo que nomeei Memórias Artificiais – Como os primeiros dentes que engoli devoraram meu estômago, até não conseguir digerir alimento algum ou a cama repleta de lagartixas durante febre prolongada. Enredos inventados para demarcar futuras lembranças, e um dia, próximo do fim, contar a mim mesmo a maior mentira de todas que foi estar vivo.

Foi ali, no quintal da casa, no interior do estado. Passávamos a tarde de domingo comendo formigas. —Só as pequenininhas fazem bem para a visão o Tio Zezo falou. Disse para a prima.Aposto que tamanduá enxerga melhor que águia. Ela respondia. Duas crianças cercadas por pedaços de azulejos vermelhos e pretos, perdidos da sombra e da visão do restante do gramado com árvores.

Mudei para a capital – quatorze anos já aqui.  Sempre reconheci a paisagem próxima à qual vivi e com a qual me relacionei por hábito, mas a paisagem mudou. Tentei fisicamente acessar o mesmo quintal; não existia mais. Tinha encolhido, demorei para encontrar as formigas, a prima sumiu, mas o menino estava lá, escondido no barro.

Nunca gostei de voltar aos lugares que passei parte da vida. É como tatuar nas rugas uma seringa com agulha cega. Nada fica nos olhos, muito menos a paisagem. Mas o corpo da criança deveria estar ali, em algum lugar daquele quintal. A carcaça já havia sido comida pelo tempo, mas os ossos não.

A cachorra já era idosa, mas também lembrava das tardes domingueiras. Deveria contar com seu olfato e o resto a pá daria jeito, pelo menos no começo. Aliás, foi nesse dia que descobri o prazer de cavar buracos com a mão. Não matei uma minhoca sequer, dei todas para a companheira canina que alertou sobre os ossos estarem ali.

Tocar no duro da própria ossatura ainda pequena foi descobrir apenas o rude trabalho da morte. Nada mais esperava encontrar ali, até chegar ao crânio. Com pincel, lápis e bloco de papel rascunhava o que a cabeça da caveira propunha: —Mate a si próprio como já se matou aqui, assim, todas as memórias voltarão e o quintal ficará grande novamente.

Mais ou menos por essa época, foi anunciado, serei meu próprio assassino. O gato morre sete vezes, a água viva pode ser imortal, a esponja do mar treze mil anos, e os humanos noventa anos com sorte- amém. —A estratégia para viver outras vidas é poder matar inúmeras vezes, um pouquinho por dia, sempre que lhe for possível. É só acessar alguma das suas memórias artificiais. Falou a caveira para o próprio suicídio. Decidi então, começar a escrever esta coluna quinzenalmente.

Quando damos as lembranças a história que convém, não abrimos um texto sem estremecer um pouco. Abri-lo é viver um acontecimento em branco. Contar memórias exige reciprocidade entre interlocutores. O território aqui será nosso – meu e de quem estiver lendo.

até quinze dias,
o que não for mentira – não existe.

Victor Grizzo
Victor Grizzo

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.

Avatar de Desconhecido
Publicado por:

Deixe uma resposta