DAVID HAMMONS – BRUNO BAPTISTELI – ABDIAS NASCIMENTO E GUERREIRO RAMOS O QUE ELES TÊM EM COMUM?

O mote para escrever este texto, deu-se logo após eu receber de presente da editora UBU, a reedição do livro “A Redução Sociológica” do sociólogo Alberto Guerreiro Ramos.

O que me chamou de imediato a atenção ao manusear a obra, foi a bandeira que estampa a capa do referido livro, a base em preto, o losango em vermelho e dentro dele, o círculo em verde, cortado por uma faixa abaulada em preto, na parte superior da faixa, as vinte e seis estrelas simbolizando os 26 estados brasileiros e na parte inferior, uma estrela solitária representando o distrito federal, me chamou a atenção essa configuração disruptiva da bandeira nacional e imediatamente, fui procurar saber quem era o/a artista, afinal, ilustrar o livro do majestoso Guerreiro Ramos não era um projeto prosaico, impensado, intui, contudo, vez que desconhecia a autoria e as razões pelas quais o/a artista havia refletido para construir a referida bandeira.

Quilombismo (Exu e Ogum), 1980, de Abdias Nascimento

As informações contidas nas cores, de início me remeteram ao continente africano, notadamente, ao movimento pan-africanista que carrega a tríade crômica mencionada e fui levada à imagem de Abdias Nascimento, que tempos atrás, em uma proposta contracolonial, refez a bandeira do Brasil, cujo título é Okê Oxóssi, obra datada de 1970, que inseriu símbolos africanos na flag, introduzindo o orixá Oxóssi numa virada de chave decolonial, colocando na centralidade os sujeitos alijados do tecido social.

O reposicionamento dos sujeitos como solicitado por Lélia Gonzales ao conceituar Améfrica, foi acolhido por Abdias, altamente influenciado pelo movimento pan-africanista. O artista, ganhou sua primeira exposição individual no Museu de Artes de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) em fevereiro de 2022, cujo título “Abdias do Nascimento: um artista panamefricano” – neologismo que aproxima o conceito amefricano* cunhado pela filósofa, antropóloga, psicanalista e pensadora, Lélia Gonzales e do pan-africanismo** – movimento político cuja ideologia versa contra o neocolonialismo, tendo como principais lideranças, Marcus Garvey e Du Bois.

Diferentemente da bandeira de Baptisteli, que manteve as vinte e sete estrelas e a forma horizontal, Nascimento, reconfigura em sua releitura, a flag em posição vertical colocando na centralidade a seta do orixá caçador Oxóssi, o guardião das florestas, da natureza e depositário do saber, além de substituir o lema positivista/iluminista Comteano, “ordem e progresso”, por: “OKÊ OKÊ OKÊ OKÊ”; cujo significado é salve o grande caçador, o orixá Oxóssi carrega o símbolo da justiça

Ao contestar o positivismo Comteano e inserir no símbolo máximo nacional, Oxóssi, o orixá guardião da floresta, além de colocar a diáspora Atlântica como protagonista na formação da nação, Abdias, reposiciona os povos originários restituindo-os ao corpo social, retirando desse modo, o poder das mãos do colonizador, derrubando o mito da narrativa única, nos informado por Chimanmanda Ngogi Adiche. Esse olhar balizado em matrizes negras leva-nos a imaginários possíveis ou ao que podemos nominar de afro-especulação. O teórico Marcos Marcondes, acerca do tema nos comunica que:

“Essas perspectivas teórico-metodológicas, visam de diferentes modos, extrapolar os limites das ficções raciais estabelecidas em tempos coloniais e que limitam as vidas negras às possibilidades que lhes foram imaginadas a partir do colonialismo. ”

Imaginar outras possibilidades e liberdades é o que fazem Hammons, Abdias e Baptisteli com suas flags decolonias. Eles rompem com o projeto colonial e de objetos especulativos e observativos até então impostos às pessoas negras e passam a tratá-los como sujeitos, passando, por tanto, a contar suas próprias histórias, traçando outras narrativas, é o que Guerreiro Ramos também nos provoca a fazer: sermos negro-vida e rejeitar ser o tema da escrita do colonizador.

A narrativa colonizadora e as configurações contemporâneas advindas dessa linhagem, são violentas. Hammons, ao decolonizar sua bandeira, está em diálogo com os movimentos civis estadunidenses da década de 50 e seguintes, os quais, lutavam/lutam contra as políticas segregacionistas impostas à população afro-americana, ao reconfigurar a bandeira estadunidense com as cores do movimento africanista e denominar a obra de African-American Flag, deixa evidente o continente africano como a matriz mantenedora do mundo.

Afro Estandarte (1993), de Abdias Nascimento.

É o que podemos falar de Baptisteli, que inspirado em Hammons, aciona a afrocentricidade, conceito trabalhado pelo teórico estadunidense Molefi Kate Asante, marcando o africanismo como bússola orientadora da diáspora atlântica, reposicionando os sujeitos trazidos de forma compulsória e outrora escravizados para serem as mãos responsáveis pelo acúmulo da riqueza brasileira na gramática da alteridade, contrapondo desse modo, à política de subalternização colonial.

Guerreiro Ramos, em “A Redução Sociológica”, obra motivadora desta escrita, aponta em “A mentalidade colonial em liquidação”, que o Brasil projeta o rompimento com as bases históricas colonizadoras, assenhorando-se de um projeto coletivo em que se organiza internamente, reconhecendo-se como potência e agencia, em linhas gerias, que rejeitemos a estrutura anacrônica, e passemos a agir como protagonista nas relações externas.

Nessa toada, assim como Hammoons, Abdias e Baptisteli, que buscaram através da arte inscrever o negro dentro do tecido social como agentes de construção de uma identidade nacional, conferem um poder: não o de mando, mas da promoção de um diálogo que não existia. A teórica Beatriz Nascimento no artigo “Por um Território (Novo) Existencial e Físico” (2022), faz a seguinte indagação:

“para que nos serve a história? Não preciso dela, enquanto não possuo poder. Ela serve àqueles que detêm e se registram através do tempo enquanto poder.”

Aqui, o pensar de Guerreiro, se aproxima do de Nascimento, ao trabalhar a Redução Sociológica, aponta o olhar à retomada de consciência de um poder que dever ser compartilhado, ao propor tal insígnia no campo da dialética sociológica inscrita no pensar nacional, dialogando dessa forma com as vozes politicamente minorizadas ao não ceder às epistemologias ditas universais sem considerar a produção epistêmica local. Os diálogos aqui inseridos pelas lentes de Batistelli, Hammons, Abdias e Ramos joga luz à uma possibilidade contracolonial de existência.

A Flecha do Guerreiro Ramos: Oxossi (1971), de Abdias Nascimento.
A Flecha do Guerreiro Ramos: Oxossi (1971), de
Abdias Nascimento.

Sara Araújo (Salvador, Bahia) tem 46 anos, é bacharel em Direito, licenciada em Ciências Sociais, pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica, Analista Jurídica da Defensoria Pública do Estado do Paraná. É palestrante, sommelière de cervejas, ganhadora  do Prêmio Zumbi dos Palmares (2017) pela Câmara de Vereadores de Bauru (SP), integrante da Comissão Étnico Racial Lélia Gonzáles da Associação dos servidores/as da Defensoria Pública do Estado do Paraná, colaboradora do NUDEM – Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, do GT de Racialidae da Defensoria Pública do Paraná, do GT de Diversidade da ABRACERVA e integrante do coletivo Expressão Poética desde 1999. Coautora das seguintes obras: Poetas Virtuais (2000) Poêmico – Poesia em tempos pandêmicos (2021) Mãe Pretas – Maternidade Solo e Dororidade (2021) Expressinho Poético (2022) e Quando o Racismo bate à porta (2023). É colunista da Revista Philos e você pode encontrar-la nos perfis @araujojsara e @literaturanobar no instagram!


Referências bibliográficas:

[1] A Redução Sociológica, de Alberto Guerreiro Ramos.
[2] Dicionário das relações étinico-raciais contemporâneas, de Flávio Rios, Márcio André Santos e Alex Ratts.
[3] Relações Raciais, de Guilherme Marcondes.
[4] O Negro Visto Por Ele Mesmo, de Beatriz Nascimento.

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