Thiago Oliveira é brasileiro, professor da escola pública, nascido no estado do Rio de Janeiro e, como ele mesmo descreve: “na invisível Zona Oeste da cidade”. Foi cotista do Prouni e é formado em Letras. Tem contos em antologias. “Brutos e Insensíveis” é uma obra inaugural e foi lançada durante a pandemia do covid-19. O livro foi editado pela editora Escaleras, de Salvador, em 2021.

Dividido em 11 [onze] contos o livro inicia-se com “Vermelho” e sequencia-se em “Papo de Cria”, “Cicatrização” “As coisas sempre são assim”, “Janelas”, “Inquisição”, “Empurrões”, “Em.transe.tu”, “Andarilha”, “Retrato de família”, “Chat de zapzap”.

A temática que permeia os contos são a vida cotidiana, a violência policial, política, a vivência escolar, a violência contra a população periférica, a violência familiar, o abuso infantil, o casamento infantil, a violência racial e urbana e a doença mental/ansiedade. O conto escolhi do por mim para ser analisado foi “Vermelho”, que abre o livro. O autor inicia a escrita com a seguinte frase:

“A culpa nunca é minha”. Os homens me usam de todas as formas, sou um artigo fetichista, uma mercadoria de luxo.” Thiago Oliveira

Ao ler esse excerto, a primeira ideia que vem à cabeça é que se trata de uma pessoa que ganha a vida vendendo-se sexualmente, e conforme vamos avançando à leitura, a ideia sobre venda e compra de prazer sexual, vai se materializando.

De repente, a personagem, que até aquele momento não tem nome, nem rosto, para e tem uma crise de consciência de si e do mundo e questiona a existência de deus, assim mesmo, em letra minúscula, retirando qualquer poder que essa figura bíblica poderia ter. Além de questionar a existência do onipotente, infere que os homens após praticar obras sórdidas, invoca o nome de deus, e ai reside uma contradição, pois ao mesmo tempo que nega a existência do onipotente, reconhece que as pessoas o invoca buscando remissão e é neste momento que diz, “Talvez, ele só seja um voyer sádico.” Apontando a existência de deus, no entanto, o ver como um ser perverso.

Passado o momento de negação ou afirmação da presença do ser onipotente, a personagem retoma sua história e nos aponta que nenhum ato que pratica é fruto de sua ação consciente, ela é apenas usada e manuseada por terceiros.

Gaba-se de ser um ser limpo, polido e está sempre apto a ser usado e nunca falhar.

A personagem diz saber que quando é exibida ou manejada, intimida, mas, é consciente de que existe uma linha tênue entre o respeito e o medo que ela transmite, se a apertam, ela vira fogo, fumaça e devasta a ideia de paraíso.

Ao mesmo tempo que quem a manuseia ostenta poder, quando ela usada e atinge o objetivo para o qual foi trabalhada, a culpam pelo seu êxito. É ciente de que a desumanização causada e materializada através dela, não foi fruto dela, mas da irracionalidade de quem a comprou ou a criou.

Diz que o alvo preferido dela não são pessoas que tem dinheiro, as que possuem CEPs nobres não são o alvo do seu fogo, mas, moleques pretos que circulam em vielas das cidades. 

Ontem, ela foi programada para tingir o chão mais uma vez de vermelho, já estava mirando na cabeça de dois meninos pretos, quando falhou, foi recolhida e desmontada, disseram que ela não servia mais, foi para o recall e chamada de inservível, logo ela que era chamada de puro fogo, de pura potência.

Como colocado, o autor levar os leitores a pensar que a personagem é uma profissional do sexo, no primeiro momento, a sensação é que estamos diante de um conto erótico, mas o desfecho é um soco no estômago, cai-se por terra quando se percebe que a prensagem é uma arma que estava contanto seu modo de agir e como foi programada para matar corpos, sobretudo, negros e favelados, usa-se brilhantemente do recurso da prosopopeia.

O autor expõe de forma aberta o racismo estrutural e institucional, o racismo territorial e a letalidade policial voltadas aos corpos negros, ele denuncia a violência estatal.

Este é um livro que recomendo a ser utilizado com alunos a partir da oitava série do ensino fundamental, a fim de discutirmos violência policial e letalidade do estado direcionadas aos corpos politicamente minorizados. 


Sara Araújo (Salvador, Bahia) tem 46 anos, é bacharel em Direito, licenciada em Ciências Sociais, pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica, Analista Jurídica da Defensoria Pública do Estado do Paraná. É palestrante, sommelière de cervejas, ganhadora  do Prêmio Zumbi dos Palmares (2017) pela Câmara de Vereadores de Bauru (SP), integrante da Comissão Étnico Racial Lélia Gonzáles da Associação dos servidores/as da Defensoria Pública do Estado do Paraná, colaboradora do NUDEM – Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, do GT de Racialidae da Defensoria Pública do Paraná, do GT de Diversidade da ABRACERVA e integrante do coletivo Expressão Poética desde 1999. Coautora das seguintes obras: Poetas Virtuais (2000) Poêmico – Poesia em tempos pandêmicos (2021) Mãe Pretas – Maternidade Solo e Dororidade (2021) Expressinho Poético (2022) e Quando o Racismo bate à porta (2023). É colunista da Revista Philos e você pode encontrar-la nos perfis @araujojsara e @literaturanobar no instagram!


A obra que acompanha a resenha é do artista Guilherme Almeida, da série Destruição dos Mercados I, Carolina Maria de Jesus, uma cortesia da Galeria Base.

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