Há muito tempo, quando não havia linhas políticas imaginárias que designavam territórios, antes mesmo de acreditarem que pessoas surgiam das costelas, existia um povo que cultuava o prazer da vitalidade. Nessa época, muitas línguas coexistiam e havia tempo e espaço para perguntas sem respostas. O observar da vida envolvia o sentir como um todo: havia o toque, havia a escuta, havia o gosto, havia o cheiro e ver era apenas uma das tantas possibilidades de ler o mundo. Nesse tempo, sonhar era uma dessas tantas maneiras imprescindíveis de se estar em presença e, assim sendo, o corpo não era a resignação da manifestação da existência. Porém, um outro povo que vivia em terras longínquas foi infectado com a doença da visão e passou a transmitir sua limitação mundo a fora. Conta-se que esse outro povo herdou o mal de um dos seus ancestrais que, um dia, parado na beira de um rio, ficou abismado com sua imagem refletida nas águas cristalinas, afogando-se em si mesmo e, quando enfim foi resgatado, como sequela daquele acidente, já não possuía nenhum outro sentido além da visão.
Os que tiveram contato com esse ancestral passaram a acreditar na força daquilo que ele via e, crentes na verdade universal, também começaram a enxergar o mundo com os olhos daquele que elegeram sábio. Os discípulos do sabedor amavam o que neles era parecido, encerraram-se em si e imitavam os hábitos do ermitão de voz firme e que falava frases de efeito que poucos entendiam. Conforme os súditos assumiam o seu único ponto de vista, gradualmente perdiam a capacidade de escutar, de tocar, de sentir. Porém, antes de perdê-las totalmente, experienciavam as emoções de forma desregulada. Com isso, eles passaram a ter vontade de engolir tudo o que estava à sua volta, tamanha a fome que sentiam.
Quando acabaram com seu próprio mundo, selecionaram os representantes mais bem dotados da ganância da mesmidade para desbravar outros territórios. Conforme seus grandes barcos atracavam em terras que eles não conheciam, os desbravadores se assustavam com tudo o que viam. Seus olhos ardiam perante os novos tons, texturas e formatos de corpos. Como haviam perdido a capacidade de escutar, escapou-lhes a curiosidade e não sabiam fazer perguntas. Para eles, o importante era classificar cada corpo com o único recurso que lhes sobrava, a fim de não se perderem de si mesmos. Por consequência, o povo que só via inventou a ideia de negro para identificar os corpos que se diferenciavam dos seus, sobretudo quanto à cor da pele. Eles também inventaram a ideia de mulher, para nomear os corpos que possuíam seios e vagina. Assim, poderiam se lembrar de que eles mesmos eram brancos, que eram homens, e que eram parecidos com o deus que eles inventaram, reafirmando isso diuturnamente para sobreviverem a apatia que os afligia desde que o primeiro dos seus se deixou cair na depressão de si.
Reza a lenda que o povo branco, cego de tanto ver, dominou os outros povos sinestésicos, dividindo os territórios e negando toda a possibilidade de poder, de ser e de saber daqueles que eles condenaram com sua presença. Acreditavam que dessa forma os tidos como os outros, ou seja, os negros, as mulheres e todas as pessoas de corpos dissonantes do padrão que eles estabeleceram perderiam a confiança na capacidade de pensar e de eleger as condições de felicidade de suas próprias vidas. Como forma de manter seu poder, os brancos passaram a esconder espelhos distorcidos em todos os lugares possíveis, em todos os caminhos que os sinestésicos poderiam tentar cruzar. Esses espelhos distorcidos eram minas terrestres e a cada passo que um negro ousasse dar uma imagem desvirtuada explodiria, estilhaçando em confusão a sua autodefinição e sua autoavaliação. A branquitude também estabeleceu separações imaginárias nos territórios, ignorando as organizações das comunidades que ali já viviam, e as nomearam de fronteiras. A concentração de bombas subterrâneas era maior nessas áreas. Além disso, quanto mais marcas de diferenças do corpo branco os outros corpos tivessem, mais terríveis eram os possíveis danos causados a quem pisasse em uma mina de imagem distorcida. Essas minas possuíam o nome peculiar de “civilização” e a justificativa para seu uso era de que uma vez atingidos pela noção de civilidade, os outros seriam salvos do defeito da diferença.
A branquitude se espalhou globo a fora infectando outros modos de pensar, mas elegeu um pedaço do mundo para ser a grande novidade. Esse espaço funcionaria como uma espécie de escudo ideológico para o sistema criado. Nascia, assim, para os brancos, a América. E a noção de americanidade, ainda que fecundada no Atlântico entre travessias cruéis e amargas, eclodiu formando uma categoria geossocial, um território fértil daquele mundo cheio de civilidade, onde a colonialidade, a etnicidade, o racismo, o sexismo, o capacitismo entre outras opressões poderiam florescer e ser defendidas como expressões da modernidade, do avanço, do progresso e do desenvolvimento. Que vida poderia ter uma mulher negra nascida no território que foi politicamente recortado para o que hoje nomeamos Brasil?
Ironicamente, foram exatamente as donas de corpos que manifestavam de formas entrecruzadas as noções biologizantes de raça e de gênero as pessoas designadas aos trabalhos de cuidado da branquitude. Diferentemente do que era mister para os povos cegos de tanto ver, para os sinestésicos a anatomia dos corpos não era necessariamente um elemento importante para a sua realização enquanto integrante de uma sociedade, muito menos para a classificação em noções hierárquicas e desiguais de poder. Sonhar, por exemplo, era uma possibilidade de entender e assumir determinadas tarefas da vida em comunidade. Da mesma forma, em outras comunidades, conforme envelheciam, as pessoas assumiam posições de deferência. Ou seja, o que os brancos organizam em termos das invenções de gênero e de raça, para os povos sinestésicos não era relacionado a uma condição física e estava mais aberta à fluidez do tempo e do reconhecimento das camadas mais subjetivas. Nos mundos dos povos sinestésicos, sonhar e envelhecer não eram utopias. Então, conforme amamentavam os filhos brancos, enquanto ninavam, contavam histórias, ensinavam as primeiras palavras, seguravam suas pequenas mãos para dar os primeiros passos, alimentavam, brincavam e ofereciam seus colos, as mães negras criavam o Brasil. Em um movimento congênito de existência e de capacidade de adentrar espaços que de relance pareciam cerrados. Uma característica típica de filhas das águas.

Desde a mais tenra idade, os filhos dos brancos manifestavam o mesmo problema de visão de seus genitores: nasciam sem conseguir enxergar e conforme cresciam viam apenas aquilo em que acreditavam. Enquanto bebês, experienciavam um sentimento de unidade com os corpos que os alimentavam, que os consolavam, que cuidavam deles: as mulheres negras escravizadas. Em uma das capitanias mais antigas de uma região do Brasil, destinada à exploração de ouro, um rapaz branco chamado Luís assustou a todos pela maneira com que não soube lidar com sua frustração em relação à Iáiá, uma mulher preta obrigada a ser sua mãe de leite. Conforme Luís crescia e notava que os braços, os seios e o colo escuro de Iaiá não eram partes constituintes de seu pequeno corpo claro, o sentido de unidade abria espaço para a percepção de Iaiá como pessoa, o que o transportava para a crença de propriedade e de posse sobre ela, assim como de todos os corpos negros mantidos reféns entre as cercas da fazenda. O sentimento amoroso face ao cuidado recebido por Iaiá tornava-se ódio perante a perda daquela parte tão nutritiva que antes ele entendia como seu “eu”.
O desenvolvimento acompanhado das transformações da visão metamorfoseou o bebê Luís em um jovem cavalheiro que se entendia dono dos corpos que deveriam satisfazer também as suas realizações sexuais. Porém, sem recursos para lidar com a angústia que assolava o seu coração tão branco e tão masculino, e por se perceber responsável por impedir o estabelecimento do vínculo primordial com Iaiá devido às suas próprias ações baseadas no racismo, Luís feriu os próprios olhos, agonizando em desgraça. Os brancos da região evitavam contar a história do jovem aristocrata e pensaram que com o tempo todos esqueceriam daquele rapaz que traiu a si e aos seus. Luís era um exemplo do que acometia a toda a branquitude, que, em uma lógica de correspondência entre atributos biológicos e funções sociais, passou a enxergar o útero negro como alvo singular para depositar sua ira e implementar políticas de extermínio de corpos e de subjetividades negras, fazendo com que mulheres como Iaiá e quem elas pudessem parir fossem violentadas por serem portadoras da vida e por ameaçarem a população branca com sua capacidade de expansão mesmo em situações desumanas.
Para não correrem o risco de que histórias como a de Luís fossem contadas e expusessem as fragilidades da branquitude, eles criaram instituições que tinham a incumbência de qualificar o que era pensamento válido e as chamaram de universidades, o único espaço de criação de epistemologias, e nomearam doutos aqueles que, segundo eles, eram os únicos capazes de produzir pensamento. Tudo o que fosse gerado fora dessas instituições e que fosse realizado por corpos dissidentes seria visto como exótico, ou seja, fora do alcance da visão. Tendo a visão deturpada como o único sentido para validar sua criação de mundo, o que não se parecia fisicamente com eles não podia ser humano e não merecia gozar da humanidade, assim como deveria estar alijado desses espaços, exceto se fossem objetos de estudo. Até hoje é muito difícil adentrar os portões se você apresentar no corpo pistas de ascendência dos povos sinestésicos. Dentro dessas instituições, desde quando foram inventadas, a consciência entra em guerra contra a memória: a primeira, muito valorizada, naturaliza opressões por meio do encobrimento e da criação de verdades universalizantes excludentes. A memória, por sua vez, tem o poder de restituir a subjetividade de pessoas colocadas em posição de subalternidade, incluindo e priorizando as histórias de vidas longe dos centros de poder. Todavia, os homens admiradores da consciência não sabiam que a memória caminhava de mãos dadas com o Tempo e que ambas as forças eram cultuadas pelos povos sinestésicos.
Iaiá, ainda que tenha sido impedida de alimentar os filhos já nascidos, que tenha sido obrigada a parir frutos que não queria, e que tenha sido impossibilitada de tomar decisões sobre si e sobre seus rebentos, trazia consigo o recurso ancestral da memória. Na noite que antecedia sua condenação pela ruína de Luís, Iaiá resolveu pedir orientações ao mistério. Agachada ao lado da sua esteira, dentro do espaço úmido que dividia com outras dezenas de mulheres e crianças, acendeu o pedaço de cera com o qual ela havia enrolado um barbante. Sua irmã mais velha, Nkiru, oferecera a ela um pouco de mel e ela o derramou sobre a pequena cumbuca que usava como castiçal para a vela. Ali, ela abriu seu peito, derramou-se em lágrimas silenciosas, deitou-se de bruços à frente da vela e do mel, fez uma torção com o corpo virando-se para a esquerda e para a direita, voltou à primeira posição e encostou sua cabeça em sinal de reverência no chão de barro batido. O silêncio dominou o espaço a ponto de ser possível escutar o barulho do fogo queimar o barbante. Então ela se levantou, ficou de cócoras e um coro de palmas ritmadas em três tempos vindo das mãos de todas as pessoas que se encontravam no barracão e que a acompanhavam em preces encheu o espaço de axé, um poder impossível de ser traduzido.
Iaiá foi transportada em sonhos para os braços de Oxum, a Iyá primordial. Não é importante dizer se Oxum é fêmea ou se é macho, a informação fundamental sobre ela que podemos receber é que ela é Iyá, que nela está a força criadora e procriadora e porque todas e todos nascemos de Ìyá também herdamos sua força artística de nutrição da vida. Enquanto se banhava em correntezas de pensamentos e tinha sua alma alimentada, Iaiá mergulhou em uma espiral de vida plena. Ela percebeu que possuía o direito da existência social, com seu próprio horizonte de sentido, radicalmente alternativa ao que estava sendo imposto pela consciência hegemônica. Sentada na beira do rio de Oxum, ela viu nas águas o reflexo dos astros, das árvores, da sua prole, dos seus ancestrais e dos outros tantos seres que habitavam o planeta e então entendeu que quando olhamos para as águas sem distanciamento, tudo o que podemos enxergar somos nós mesmas, devido a pouca possibilidade de ângulos para a reflexão. Oxum lhe ensinava naquele instante a mirar o abebé da existência carregada de sentidos, olhando para si, mas distanciada o suficiente para se perceber como parte de comunidades maiores e mais repletas de significados. A cosmopercepção que oportunizou Iaiá perceber nas águas que seu reflexo era apenas um entre os outros, gerou nela a compreensão de que gozar do mel de Oxum é um princípio coletivo para a garantia do bem viver.
Na outra margem do rio, Iaiá notou um homem agachado de olhar tão fixo na superfície que quase encostava o nariz nas águas. Ela quis chamá-lo, mas ele não a escutou. À frente de Iaiá, estava o primeiro homem branco apaixonado por sua própria imagem, sem distância suficiente para perceber o mundo ao redor, prestes a mergulhar em seu abismo. Ali, onde o tempo supera a gaiola da linearidade, Iaiá observava o primeiro sábio. O que poderia ter acontecido se naquele momento o homem tivesse dado dois ou três passos atrás? De um lado da margem: “conhece-te a ti mesmo”; do outro lado: “eu sou porque somos”. Esse rio continua a correr e a refletir para além dos tempos.
Minha avó me ensinou, assim como foi ensinado por cada uma das Iyás que a precederam, da mesma forma que foi ensinado por Iaiá, que sonho também é indicação de caminho e que é na encruzilhada do rio que lançamos as oferendas que fortalecem nosso orí. Ao acordar, nunca devemos passar a mão no topo da cabeça se não queremos perder as mensagens transmitidas pela memória ancestral. Hoje acordei com cuidado para não passar as mãos na cabeça. Sonhei que estava perto de um rio e que dentro dele havia uma mulher com um bebê no colo. A mulher parecia entrar em transe e deixava o bebê cair na água. Eu corria, mergulhava e procurava a criança na lama do fundo do rio, até encontrá-la. Porém, ao retornar para a superfície, a mulher estava com o primeiro bebê no colo. Em minhas mãos estava um outro recém-nascido. Eu não podia devolvê-lo ao rio, tampouco conseguia ficar ali no meio devido a correnteza. O rio me cobrava um posicionamento, eu precisava decidir para qual margem seguir. Em uma margem eu daria essa criança à consciência, na outra, à memória.
Como herdeira da força criadora, olhei para a margem da memória e pedi às minhas que me guiassem rumo ao prazer de gozar uma vida plena. Aquele bebê, confessou-me Iaiá, era o fruto da minha capacidade criativa, mas se eu quisesse que ele existisse eu deveria entregá-lo para o mundo. Olho novamente para minhas mãos e o que era uma criança se transforma em uma tela vazia. Nela eu balbucio em códigos dimensões profundas de mim, distancio-me um pouco, vejo refletir tudo o que me cerca em níveis que nem sei nomear, arreio o texto no leito, e juro que já posso sentir você que está agora a me ler em uma folha de revista. Neste momento, encho-me de axé, como no dia que Iaiá acendeu a vela e ofertou o mel, e cada vez que alguém volta aqui reverbera em mim o encontro e a possibilidade do prazer que liberta. Em terra, temo pisar nas minas de imagens destorcidas ainda escondidas pelo caminho. Iaiá me sussurra para confiar na direção da coragem e não no medo, que nascemos para a escolha plena e nunca para o caminho rumo ao menos ruim. Somos herdeiras do gozo. Mais uma vez, o Tempo roda.

Jaqueline Coêlho é doutora e mestre em Linguística – Linguagem e Sociedade, pela Universidade de Brasília. É licenciada em Letras- Português pela mesma universidade, com período sanduíche na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em Portugal. É professora no Instituto Federal de Brasília. Atua em pesquisas sobre áreas dos Estudos Críticos do Discurso e dos Estudos Feministas Decoloniais Antirracistas com foco em Justiça Reprodutiva e Oxunismo. Apaixonada e inquieta, transita entre o mundo acadêmico e as artes, oferecendo oficinas teóricas de preparação de elenco, palestras, cursos, consultorias e escrevendo textos literários. Quando está sumida, é possível encontrá-la em Salvador ou na Ilha do Ferro.
As fotografias que acompanham o artigo são parte das obras Pontes sobre abismos (2017), (Outros) Fundamentos (2017-2019) e Se o mar tivesse varandas (2017), de Aline Motta, uma das mais importantes artistas brasileiras contemporâneas.