António Lobo Antunes é um desses autores portugueses que, para muitos, é como um santo num pedestal. Uma figura que se admira, mas à distância enquanto envelhece e lhe cai o pó, sem que muitos saibamos as razões pelas quais foi santificado. Esta comparação religiosa do autor com um santo poderia ser uma das metáforas com que a personagem central da sua primeira novela tenta referir-se ao mundo para lá da simples mimese.
Digo isto porque sinto que hoje Lobo Antunes é mais admirado do que lido no seu país, e é possível que, fora dele, a sua fama supere a leitura consciente da sua obra. Por isso, decidi ler a sua primeira novela e, ao fazê-lo, confirmei que as primeiras obras de um autor nos dão uma visão privilegiada daquilo que se virá a constituir o seu universo literário. Memória de Elefante e Os cus de Judas, ambas publicadas no mesmo ano 1979, são um testemunho singular desta verdade. É que o autor, embora tenha escrito ao longo de toda a sua vida, publicou as suas primeiras ficções apenas perto dos 40 anos, depois de ter decidido deixar a sua profissão de psiquiatra para se dedicar por inteiro à literatura.
A obra, publicada há mais de quatro décadas, mantém uma vigência notável, não só pela sua mestria literária, mas porque nos fala, a nós, leitores de hoje, sobre a nossa própria condição.
A escrita do lisboeta é um assombroso fluxo de consciência, uma torrente verbal que recria o caos mental de um psiquiatra na sequência do seu divórcio. O autor rompe com a sintaxe linear para mergulhar numa prosa densa e profusamente ornamentada, cuja estrutura é barroca e carregada. É um ato de coragem, um gesto que se opõe diretamente à lógica imediatista e facilista da nossa era. Vivemos num tempo em que reinam os conteúdos ligeiros e rápidos, com respostas evidentes e estruturas previsíveis, dados pelas regras de um mercado que nos empurra para o consumo de “literatura” sem risco. Ler Lobo Antunes, pelo contrário, é, de alguma forma, um ato de rebelião, de insurreição. O seu texto assemelha-se a uma pintura de Hieronymus Bosch, (ou de Chaïm Soutine, um dos pintores que o personagem cita na novela) onde cada canto está pejado de detalhes, de referências e de associações inesperadas. O leitor é forçado a uma leitura lenta e atenta, convidado a deter-se em cada frase para descortinar as camadas de significado.
A complexidade da obra decorre da sua riqueza intertextual, que abrange referências culturais, religiosas, filosóficas, políticas e artísticas. O livro é um tecido complexo de simbolismo e surrealismo, expressionismo, no qual a realidade se deforma e se reordena de acordo com o estado mental do narrador. Para decifrar esta intrincada rede, tive de estar disposto a aprofundar-me no desconhecido, a procurar aquilo que ignorava (que não foi pouco) para que a totalidade do texto se revelasse. Nesse sentido, a leitura tornou-se um ato de cocriação, uma busca de sentido que ressoa com a teoria de pensadores como Roland Barthes, para quem a “escritura” do autor é algo que o leitor deve “escrever” em conjunto, visto que, como afirma em S/Z, “o texto é um objeto semiótico que o leitor deve preencher com a sua própria contribuição, um espaço onde o significado não é recebido, mas sim produzido”.
Esta prosa intrincada e exigente é também uma crítica feroz ao que Adorno e Horkheimer designaram como indústria cultural, onde a arte é transformada em mercadoria para o consumo de massas, e os autores são levados a funcionar como autómatos mercantilistas. Lobo Antunes, com livros como este, pelo contrário, demonstra a pouca valentia, risco e criatividade da maioria dos autores atuais. O seu texto resiste a ser reduzido a um produto, mantém a sua autonomia e a sua função crítica, negando o consumo fácil e obrigando o leitor a um compromisso profundo.
A Solidão Existencial e a Crítica à Sociedade Pós-ditatorial
No cerne do livro reside a crítica a um ser profundamente alienado. O protagonista é um psiquiatra, alguém cuja profissão é curar a loucura dos outros, mas que é, ele próprio, uma imagem da sanidade que se desintegra. A sua memória de elefante, pesada e inesquecível, é um fardo, um resquício de trauma da Guerra Colonial que o deixou incapaz de se reconectar com a vida civil. Ele está dividido entre um passado que o assombra e um presente que não consegue habitar. A sua alienação é dupla: vive desconectado da sociedade e, mais doloroso ainda, de si mesmo.
Essa profunda solidão existencial do protagonista, que se manifesta num monólogo interno que o aturde, reflete uma condição que ressoa com muitos de nós, leitores atuais. Embora estejamos expostos a múltiplos estímulos e rodeados de pessoas e experiências, podemos sentir-nos, em essência, numa forte solidão que nos encerra em nós mesmos. Esta ideia de uma existência centrada na sua própria interioridade, marcada pela incomunicabilidade, encontra eco nos existenciários de Martin Heidegger, particularmente na sua conceção do Dasein como um ser-no-mundo, mas intrinsecamente entregue à sua própria solidão, uma condição inevitável que o leva a confrontar a sua finitude e as suas possibilidades.
O seu deambular pela cidade de Lisboa é, antes de tudo, uma cartografia da sua própria loucura. As ruas, os edifícios e os bares não são meros cenários; transformam-se em projeções do seu tormento interior. A Avenida de Roma, os Cais de Belém, o Bairro Alto – cada local é um ponto de referência para a sua desorientação psicológica. O protagonista não visita a cidade, ele a percorre, deixando-se arrastar por ela numa jornada errática que espelha a sua própria fragmentação mental. Lisboa torna-se um labirinto onde ele se perde e, simultaneamente, tenta encontrar-se.
Além da sua jornada pessoal, o livro é também uma crítica mordaz a uma certa visão portuguesa do que é “correto”, a uma moral de uma sociedade que apenas saía de quase meio século de ditadura e que começava a constituir-se sob uma democracia. A crise existencial do psiquiatra é, em certa medida, um reflexo do desamparo de uma nação inteira perante um novo tempo.
Um convite à leitura
No final de contas, a leitura de Memória de Elefante é um convite a uma jornada que transcende a experiência puramente literária. É uma oportunidade de mergulhar num período crucial da história de Portugal, num momento em que o país se desfazia dos seus fantasmas ditatoriais e tentava encontrar um novo rumo. A novela não nos oferece apenas o retrato de uma nação em transição; ela expõe, de forma visceral, os resquícios de um inconsciente coletivo que ainda hoje nos assombra: os preconceitos, os racismos, os medos e as ambições não realizadas.
Ao deambular por uma Lisboa que é tanto real quanto mental, a personagem central, com os seus traumas de vida e a sua recente crise existencial, torna-se um espelho de algo muito maior. Apesar de ser um ser profundamente português, a sua fragmentação e a sua incapacidade de se reconectar com o mundo tornam-no universal. Ele é a representação do ser ocidental, escindido, que muitas vezes, por mais que queira, não consegue decidir o seu futuro nem o seu presente, e que, em última instância, mal consegue regressar ao seu passado.
Por tudo isto, ler esta primeira novela de António Lobo Antunes não é apenas um ato de apreciação literária; é um gesto de auto-reconhecimento. É a chance de nos vermos, a nós próprios, refletidos nas páginas, em toda a nossa complexidade e vulnerabilidade, de entender que a experiência do “eu” é tão vasta e assustadora quanto a história de um país inteiro. É uma leitura que nos desafia e que nos transforma, deixando-nos com a certeza de que a grande literatura, apesar de toda a sua complexidade, está sempre a falar de nós.
Juan Quintero Herrera é um contador de histórias nascido na América (na Colômbia), com fortes vínculos com o Brasil, Portugal e o mundo lusófono. Publicou dois livros de ficção e também dirigiu dois curta-metragens. Um apaixonado pelo jornalismo cultural, pelas boas crônicas e pela psicologia.
A fotografia que acompanha o ensaio é de autoria do artista Felippe Moraes, de sua série Solfejo.
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